segunda-feira, 17 de junho de 2013

Seis sonhos e um reino – Capítulo 6


Dário José

O Reino Invadido

Um ano e três meses se passaram e o Marquês não me procurou mais, desde que contara o seu quinto sonho. Numa tarde de verão, eu estava sentado à sombra do velho carvalho, quando escutei o tropel e vi apenas uma nuvem de poeira no horizonte. Na medida em que se aproximava, pude reconhecer que era o Marquês montado em um cavalo branco. 

Desceu da cavalgadura, me abraçou e sentou-se ao meu lado num tronco de madeira. Conversamos sobre algumas trivialidades, quando, de ímpeto o Marquês levantou-se e começou a falar: “Estive aqui o ano passado contando o meu quinto sonho, bem como trazendo a interpretação do sonho anterior... Hoje, sob o peso das revelações que Deus tem me dado, quero primeiro lhe trazer a decifração do quinto sonho. Como sei que você lembra-se bem do que já lhe contei, vamos ao significado do sonho: 

“A visão dos súditos sentados no Salão Litúrgico, na presença de um dos marqueses, que entoava cânticos e mais cânticos, enquanto aguardava o seu monarca, é uma referência da necessidade premente que o povo tem de ouvir os seus ensinamentos. O Rei estava na Sala dos Escritos ao invés de estar diante do seu povo, isso aponta para o seu total envolvimento com a ‘burocracia palaciana.’

“A maneira alterada que o Rei falava, a sua inquietude e irritação por não achar o seu ‘pergaminho’, tem a ver com o peso da sua consciência por ter sido relapso em ‘perder’ o ‘Livro’, bem como o seu despreparo para encarar o povo sem ele.

“O seu apego ao ‘pergaminho’ parecia mais idolatria do que amor, pois preferiu deixar o povo sem as ‘instruções’ necessárias, por capricho e não por brio. Poderia ter usado o Livro do Escriba Mor para instruir os seus súditos, mas isso serviu também como desculpa, pois ele só se achava capaz de falar com o ‘seu’ livro... O sol se ocultando no horizonte, evidenciava o tempo ‘precioso’ que o rei perdera se ocupando com coisas de somenos. Um rei que ensina o seu povo é  igual a um pastor que apascenta as suas ovelhas no campo.” 

O sexto e último sonho

Enquanto o Marquês voltava a assentar-se sobre o tosco tronco de madeira, sob a sombra do carvalho, os seus olhos marejavam e a sua voz tornou-se embargada. Esperou algum tempo em silêncio, se recuperando da forte emoção que povoava sua mente. Então, olhou firme para mim e disse: “Tenho o último sonho para lhe contar. Eu sei que é o último porque Deus me faz sentir...

“Bem, eu estava só, numa área restrita da Casa de Banhos do Palácio Real, quando escutei um burburinho estranho que vinha do outro lado da parede. Ao me aproximar, entendi que a confusão de vozes consistia de ‘orações estranhas’. Mas, para minha surpresa, ao atravessar a porta que dava acesso ao outro salão de onde vinham tais vozes, deparei-me com seis homens vestidos de mantos brancos e com símbolos de feitiçarias pendurados nos pescoços, braços e pés.

“Um deles se destacava como líder, ou melhor, como um ‘sacerdote’, pois tinha um turbante na cabeça e era quem comandava as ‘preces’ com uma espécie de ritual, jogando ‘libações’ por toda Casa de Banhos. Observei que todos tinham trejeitos femininos, mesmo sendo homens.

“Percebi que olhavam para mim com sarcasmo, raiva e desprezo. Enquanto me angustiava com tudo aquilo, de repente vi o Rei entrar apressado no recinto. Isso me trouxe grande alívio, pois pensei comigo: ‘ele soube da invasão e veio expulsar esses intrusos daqui. ’ Olhei para o Rei e fiz um gesto de repulsa e indignação com a cabeça e com os olhos, esperando uma resposta de concordância. Mas, para minha maior surpresa, o monarca apenas balançou a cabeça como se dissesse: ‘faça de conta que não viu nada... ’ Senti no olhar dos seis feiticeiros o ar de total zombaria... Então, mais uma vez acordei muito assustado, e, ao sentar na cama, duas palavras ressoaram na minha mente repetidamente: ‘comprometimento’ e ‘permissibilidade’.”

Bem, concluímos aqui a narrativa do último dos seis sonhos do Marquês. Não perca, neste mesmo Blog, a interpretação de O Livro Perdido. Não teremos um próximo capitulo, mais um Epílogo, com algumas surpresas. Obrigado por ter nos acompanhado até agora. Encontrar -nos-emos em breve, no desfecho da estória: Seis Sonhos E Um Reino!
 

Dário José (direitos autorais reservados).

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