quarta-feira, 17 de junho de 2015

O perigoso culto à personalidade

Dário José

Cultuar a própria personalidade é admirar excessivamente a si mesmo. O culto à personalidade existe desde a queda do primeiro homem (Gênesis 3). Cultuar a si é criar sua própria verdade e viver em torno dela. Caim, o primogênito de Adão e Eva, tinha sua vontade como objeto de culto, pois ao oferecer sacrifício, à sua maneira, foi rejeitado por Deus; mesmo tendo a oportunidade de oferecer ao Senhor uma correta adoração, recusou e assassinou seu próprio irmão Abel por inveja (Gênesis 4.1-12).

Lameque, filho de Metusael e um dos descendentes da quinta geração do maligno Caim, também se autocultuava. Este, que foi o primeiro polígamo (Gênesis 4.19), também foi um assassino frio que fazia poesia das suas atrocidades em tom de auto justiça e vangloria (Gênesis 4.23,24). Apesar de Caim, Lameque e seus descendentes deixarem grandes progressos à história da humanidade (Gênesis 4.20-22), infelizmente, também deixaram a marca e a influência das práticas pecaminosas, não legando nenhuma espiritualidade sadia às futuras gerações.

O culto à personalidade existe há muito tempo. A empoeirada História nos revela o desenvolvimento de estratégias propagandistas “confeccionadas” para exaltar e divulgar sempre de maneira positivista as virtudes, reais ou não, de conquistadores de antigas dinastias, monarcas, governantes, ditadores, políticos, líderes religiosos através de pinturas rupestres, altos e baixos relevos em pedras, esculturas, desenhos, etc.

Dos monumentos antigos às modernas imagens midiáticas, só comprovam que a alma humana continua a mesma: desejosa de ser cultuada. Alma é personalidade. E personalidade é o conjunto das características que marcam uma pessoa, determinando o padrão de individualidade pessoal e social, referente ao seu pensar, sentir e agir.

Todo culto à personalidade é doentio. É doente quem presta culto a outros ou a si; é doente quem recebe culto de homens. Isso nos faz lembrar as palavras de Moisés usadas mais tarde por Jesus quando foi tentado pelo Diabo: “... porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás” (Mateus 4.10; Deuteronômio 6.13).

Vejamos algumas características de quem cultua a própria à personalidade:

Concentra todo poder em torno de si. Quem age assim sempre quer ter a última palavra. Não sabe ouvir um “não”. É incapaz de se submeter aos pontos de vista, as opiniões e liderança de outras pessoas porque já “sabe” tudo. Se alguém se propõe a ajudar identificando seus pontos fracos, não aceita porque não cogita a ideia de ter pontos fracos. Consciente ou não, age como uma figura messiânica. Até pede  e ouve opiniões alheias, mas no final o que prevalece é a sua vontade.

Nunca é uma pessoa acessível. No exercício da sua liderança, não se acessibiliza a ninguém, pois busca deixar a impressão de que é “mais santo, iluminado, separado, qualificado” do que os demais. Essa “loucura” o leva um isolamento invisível. Estar rodeado de centenas de pessoas, mas sozinho.

Faz acepção de pessoas. Se “blinda” negando atender ou estar com pessoas que tem problemas; que são humanas; que pensam; que se quebrantam; que são “simples mortais”. Gente assim não são “úteis” aos seus propósitos; não falam a mesma linguagem, andam na contramão.  

Não é transparente. Quem não se deixa conhecer com franqueza embaça a transparência do próprio comportamento! Não agir com transparência e sabedoria, é criar cultura legalista. É impossível alguém ser persuadido a acreditar nas verdades do Evangelho pregado por alguém que não as cumpre integralmente nas suas atitudes diárias! Mas quem age assim, você nunca sabe quando mente ou fala a verdade.

Estar sempre na defensiva. Alguém que usa “todos os meios” para aparentar que tudo vai “a mil maravilhas”, quando na realidade nada está bem. A atitude defensiva se externa através de desconfianças de outros quando há desgastes comportamentais. Pessoas sinceras enfrentam os problemas sem se defender, pessoas inseguras colocando-se sempre na defensiva. Vivem preocupadas de como vencer, impressionar, manter-se impune ou, então, como reduzir ou evitar o risco de ser “descoberta” por antecipação.

Se sente insubstituível. Se morresse hoje, o que aconteceria com toda “sua” liderança? Todo “seu” ministério ou serviço sofreria solução de continuidade? Mas o insubstituível se sente indispensável; único; multifacetado...Na sua cabeça nunca paira a ideia de preparar ou ter um sucessor.

Procura evidenciar a própria marca. Os artistas, políticos, desportistas  costumam fazer o próprio marketing pessoal, desejando “lucros” do seu público. Mas há também gente menos conhecida, querendo só “benesses”. Há pastores, pregadores, conferencistas e cantores que buscam evidenciar seus nomes e seus rostos em DVDs, CDs, livros, periódicos, websites, materiais gráficos. Tem currículo extenso; tem ministério com “M” maiúsculo; tem logotipo próprio; faz propaganda das próprias “performances”; seus ternos, gravatas, camisas, sapatos, relógios, anéis, estilo de cabelo, porte físico, linguajar diferem dos demais mortais; faz superexposição (“toca trombeta”) de tudo que faz (Mateus 6.1-18; I Coríntios 10.31).

Não sabe lidar com as críticas. Os críticos tornam-se potenciais alvos de futuras punições. Tenta reverter tudo, não assume as próprias falhas e joga para os outros a culpa. Mesmo se as críticas forem saudáveis, buscará a oportunidade para uma futura retaliação. Faz citações e orações imprecatórias para que todos os críticos sejam destruídos por Deus, pois se vê como “protegido” dEle. Nunca permite meios para um feedback com aqueles que, além de amar a Deus e a sua Palavra, também lhe ama. Amar também é não concordam com os erros.

Deus só exalta quem se humilha (Mateus 23.12). Só aprova quem não louva a si mesmo (II Coríntios 10.17,18). Você aceita, de coração, seguir a orientação bíblica de procurar sempre direcionar toda a atenção, todo poder, toda glória, todo controle para o Senhor Jesus? Você permite se diminuir para que Ele possa crescer? (João 3.30).

Precisamos agir como Eliseu que rejeitou bajulação e presentes de Naamã sabendo de Quem vinha o poder do seu ministério (II Reis 5.9-16).

Precisamos viver como João Batista, que tanto anunciou a vinda do Messias como denunciou o pecado de Herodes e Herodias, mesmo vindo a perder a própria vida (Marcos 6.17-29).

Precisamos nos portar como Pedro, que ao pregar a Palavra de Deus na casa de Cornélio, foi tratado com honras além do que merecia a ponto do gentio prostrar-se aos seus pés para adorá-lo. Pedro recusou tal adoração e disse: “... Levanta-te, que eu também sou homem” (Atos 10.26). Até mesmo um anjo, que supera-nos em força e glória, recusa-se também a ser adorado (Apocalipse 19.10; 22.8,9).

Precisamos saber lidar com os elogios como Paulo e Barnabé, que pregando e sendo um canal de Deus para a cura de um paralítico em Listra, e em seguida, ao serem confundidos e saudados pela multidão como deuses mitológicos, recusaram tal “reconhecimento” rasgando as próprias vestes, desprovidos de qualquer ambição e sem se aproveitarem do momento para manipular e explorar a massa incauta (Atos 14.6-21). O mesmo apóstolo fala de um “espinho na carne” que lhe foi dado para que não se ensoberbecesse com as revelações grandiosas que recebera do Senhor (II Coríntios 12.1-9).

Dos antigos registros da história mundial aos fatos atuais que nos rodeiam, encontramos o homem sempre apontando os erros alheios para justificar suas próprias ações, e, ao mesmo tempo, buscando desenfreadamente exaltar a si mesmo; de cidadãos comuns a guerreiros, reis, profetas, políticos, governantes, juízes e líderes religiosos, todos são feitos da mesma matéria adâmica – pó (Salmos 103.14).

Eu e você, às vezes esquecemos que somos vasos de barro! Precisamos constantemente ser lembrados pelo Espírito Santo que não passamos de matéria frágil: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós” (II Coríntios 4.7). 

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