quinta-feira, 30 de abril de 2015

Crer, agir e sentir o que é correto. Vale a pena buscar isso?

Dário José

Quando lemos as narrativas dos quatro evangelhos, não encontramos Jesus preocupado com a correta opinião dos homens sobre Si. Quando perguntou sobre o que pensava os demais e os apóstolos sobre Ele em Cesareia de Filipe, não estava querendo holofotes nem tampouco aquilatar a própria popularidade. Pelo contrário, pois ao elogiar Pedro pela confissão que identificava sua messianidade, destacou que o interior deste apóstolo foi invadido pela revelação do Alto (Mateus 16.13-17). Ele, até de forma pacífica, conviveu com as opiniões incorretas e equivocadas que a princípio os discípulos tinham dEle e da sua missão (Marcos 10.35-40; Lucas 9.51-56; João 14.1-9, etc).

Ortodoxia, Ortopraxia e Ortopatia

O que Jesus procurava e ainda procura nos homens é algo que podemos chamar de ortopatia. Orto... O quê? Explicarei melhor, mas por partes.

Se um indivíduo conhece a Bíblia (seus postulados e doutrinas), é alguém que defende a ortodoxia (grego ortho – correto, doxa – louvor, opinião). Agora, vamos imaginar que o tal indivíduo além de ser um exímio conhecedor e defensor das Escrituras, busca cumprir os ensinos nela contidos, tal prática é chamada de ortopraxia (do grego ortho – correto, praxis - prática). Porém, quando o tal indivíduo busca somar seu conhecimento e prática das Escrituras — na mesma proporção e cuidado — à “encarnação” das verdades e princípios bíblicos com ardor e paixão, ai surge a ortopatia (do grego ortho – correto,  pathos - sentimentos, paixões e/ou experiência).  

Ortodoxia é a doutrina correta e é a teologia do que se acredita; ortopraxia é a conduta certa e é a teologia do que se pratica; ortopatia é a experiência da fé autêntica e é a teologia do que se sente.

A ortopatia unida à ortodoxia e a ortopraxia forma um tripé que gera equilíbrio. A ortodoxia isolada, sem a vivência da ortopraxia e o fervor da ortopatia, pode até matar (literalmente). 

Por sua vez, a prática que “se deduz como certa” desassociada do correto conhecimento pode gerar motivações incorretas no coração por ser administrada fora do que preceitua a Bíblia.

“Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.
“E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”. Romanos 12.1,2 (grifos nosso).

Conforme o texto acima, devemos viver em harmonia com os desígnios de Deus (o que Ele requer de nós), cumprindo seus propósitos (o que Ele deseja de nós) e descobrir, paulatinamente, sua vontade para nossas vidas (o que Ele inflama em nós).

Quem serve ao Senhor (atos litúrgicos e atitudes diárias), quem prega e ensina o Evangelho (vivenciando e expondo sua mensagem) e quem lidera o povo de Deus (conduzindo e administrando), deve integrar ortodoxia-ortopraxia-ortopatia, ou seja, buscar harmonizar em perfeita simetria e coerência conhecimento teológico-vida prática-paixão interior.

Os religiosos da época de Jesus, apesar de conhecerem bem a Torá, não tinha a sensibilidade interior suficiente para reconhecê-LO como o Cerne e a própria Encarnação das Escrituras (João 1.1,14; 3.34). Por isso o Senhor os confrontou com contundentes afirmações:

Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam;

“E não quereis vir a mim para terdes vida”. João 5.39,40 (grifos nosso).

Isso é muito grave e perigoso! Conhecer a Bíblia e interpretá-la corretamente é bom. Buscar praticá-la é ainda melhor (Tiago 1.22). Porém, se esse conhecimento e essa prática não “encarnarem, latejando e ardendo” dentro do nosso coração, tudo que fizermos exteriormente não passará de religião oca e ativista.

Jeremias, sob o peso da mensagem de Deus para Israel, em certo momento se mostrou desanimado e frustrado, pois esse povo tinha dura cerviz e vivia uma religião ativista de corações petrificados e fossilizados, enquanto o profeta era impulsionado por uma fé ativa que fazia arder e queimar seu interior:

“Senhor, tu me enganaste, e eu fui enganado; foste mais forte do que eu e prevaleceste. Sou ridicularizado o dia inteiro; todos zombam de mim”.

“Mas, se eu digo: "Não o mencionarei nem mais falarei em seu nome", é como se um fogo ardesse em meu coração, um fogo dentro de mim. Estou exausto tentando contê-lo; já não posso mais!”.  Jeremias 20.7,9 (NVI – grifos nosso)

O que fazemos determina o que cremos. Mas não podemos esquecer que nossa fé e conduta não podem se divorciarem do que sentimos. Se nossos sentimentos não causar sofrimento e ardor, ligando o nosso coração ao coração de Deus, precisamos urgentemente rever nossas motivações, intenções, práticas, critérios, escolhas, pois não passam de meras emoções e fúteis propósitos.

Jesus não deseja de todos nós, seus discípulos, uma paixão cujo elemento de combustão seja “palha”, pois gerará apenas “fogo passageiro”. Ele deseja um fogo contínuo, ou seja, uma paixão correta, nobre, infinita. Um ardor que transforme apatia em fidelidade, como aconteceu com os dois discípulos a caminho de Emaús (Lucas 24.13-35).

É a paixão da fé ardente que forjou confiança nos apóstolos e cristãos primitivos, ao ponto de sofrerem por Ele sem medo (Atos 5.40,41; Romanos 5.1-5; Colossenses 1.24,25; I Pedro 4.12-16).  Não é uma mera paixão avassaladora, mas é o amor ardente descrito com minúcias pelo apóstolo Paulo na sua primeira Carta, aos cristãos de Corinto (I Coríntios 13.1-13).


Compatibilizar e integrar os três “ortos” (ortodoxia, ortopraxia e ortopadia) à vida cristã diária resulta em verdadeiro conhecimento, verdadeira ação e verdadeiro sentir. Caso contrário, teremos uma “piedade falsa” que é farisaica e egoística – centrada só no conhecimento e na prática – deixando de vivenciar a “verdadeira piedade” - que se interioriza em convicção de fé e se exterioriza em ações de amor.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Uma pequena mosca morta estraga tudo!

Dário José

“Qual a mosca morta faz o unguento do perfumador exalar mau cheiro, assim é para a sabedoria e a honra um pouco de estultícia.” - Eclesiastes 10.1

Deus é apreciador de boas fragrâncias. Na natureza, pôs aromas nas flores, plantas e em certas árvores. No culto do Tabernáculo, deu instruções sobre o óleo sagrado (e perfumado) para unções (Êxodo 30.22-25).

O texto acima alude à arte antiga dos perfumistas. A ideia e cena que o autor transmite é a do fabricante de perfumes, que sem perceber ou por descuido talvez, deixa cair no seu recipiente de unguento uma simples mosca. Pronto! É o necessário para apodrecê-lo, estragando todo o líquido!  

Temos aqui uma observação a ser ponderada e um problema a ser pensado:

Observação. Uma mosca tão pequena pode ser responsável por estragar e causar mau cheiro em toda grande porção e trabalho do perfumista!

Problema. A grande quantidade de unguento não anula o “mau cheiro da mosca”, mas se “encarrega” naturalmente de “multiplicá-lo".  

A parte final do texto de Eclesiastes 10.1 diz: “... assim é para a sabedoria e a honra um pouco de estultícia” (grifos nosso). Estultícia aqui é oriunda de um termo hebraico que pode também se traduzir por insensatez ou tolice.

Podemos ter uma vida inteira de honra e dignidade, mas uma simples e "pequena mosca" poderá arruinar todo esse legado histórico. Qualquer um de nós, sem exceção, podemos arruinar a nossa vida por causa de uma coisa que reputamos como pequena e ínfima.

Devemos ter cuidado com "as moscas”, pois somos perfume. O aroma que exalamos “afetará” naturalmente todos a nossa volta: família, Igreja, vizinhos, amigos, colegas de sala de aula, companheiros de ambiente de trabalho, etc. Devemos lembrar que o Deus que aprecia o bom aroma, colocando cheiro até na natureza, também busca sentir o “perfume” do nosso culto.

Do culto? Sim! Não falo simplesmente do culto ato litúrgico (I Coríntios 14.26), pois isso é o que fazemos reunidos em um templo ou salão, mas do culto atitude de vida (Romanos 12.1,2; Filipenses 4.8; Colossenses 3.1-4), que é o que somos fora do ambiente cúltico e que afeta nossos pensamentos, contagia nossas palavras e estimula nossas ações na continuidade dos nossos dias, meses e anos.

Tudo o que fazemos, mas TUDO mesmo deve ser feito unicamente para a glória de Deus. Isso  é culto, é ministério, é serviço (I Coríntios 10.23,24,31-33).

“Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem.” (II Coríntios 2.15).